Pastoral do Batismo Sacramentos e Liturgia

Por que Jesus foi batizado?

O BATISMO DO SENHOR
A celebração litúrgica do Batismo do Senhor marca a transição do Tempo do Natal para o Tempo Comum. Com o Batismo, começa a vida pública de Jesus e o anúncio do Reino de Deus, que será o tema dos domingos do Tempo Comum.
Podemos refletir sobre o Batismo de Jesus, e consequentemente sobre o nosso, a partir da palavra compromisso. Pois ao ser batizado por João, Jesus assume vários compromissos.
Um compromisso com o passado, pois ao entrar nas águas do Jordão, Jesus volta ao local onde terminou a história de escravidão de seu povo. Explicando … os hebreus, que eram escravos no Egito, foram libertados por Deus após a travessia de dois rios, o Mar Vermelho, quando entrou num período de quarenta anos de formação-provação no deserto, e o Jordão quando acabou esse tempo de deserto e o povo entrou na terra prometida. Isso quer dizer que para passar da escravidão à liberdade, o povo teve que atravessar as águas. E é justamente às margens dessa água, onde terminou a missão de Moisés, que começou a missão de Jesus.
No tempo de Jesus havia várias correntes do judaísmo, todas concordavam que a missão de Moisés encerrara-se na margem do Jordão, quando ele passou o comando do povo para Josué e em seguida morreu. Segundo o livro dos juízes, foi Josué que atravessou o Jordão e conquistou a terra prometida. Mas segundo outras correntes, a missão de Josué não foi completa, pois aquela não era a verdadeira terra prometida. Então o Jordão era o local de se esperar o “novo Moisés” que faria o povo entrar definitivamente na terra prometida.
O batismo de João entra nessa perspectiva, pois para ele a entrada na terra prometida não era apenas um exercício de mudança de lugar geográfico, mas uma mudança de atitudes, ou seja, para se alcançar a liberdade não é só mudar de lugar, mas é necessário mudar de vida. Esse é o tema de suas pregações (cf Mt 3, 1-11 e Lc 3-18). A terra prometida era o Reino de Deus e o novo Moisés (Messias) já estava a caminho.
É interessante notar que João Batista, sendo filho de sacerdote (era filho de Zacarias, sacerdote da Classe de Abias, e sua mãe era descendente do sacerdote Aarão cf Lc 1, 5) não optou por servir a Deus no templo, como seu pai (Lc 1, 8-9), mas tomou justamente um caminho oposto ao do templo. No Templo havia os rituais de purificação com água para os pagãos convertidos que, com o banho ritual, começavam a fazer parte do povo de Javé. Pois João vai dar o banho ritual justamente para os judeus, em contraste com o templo. João faz parte de um grupo que já não vê legitimidade no Templo, pois esse se corrompera. É assim que se deve entender o detalhe da discussão dos discípulos de João Batista com um judeu a respeito da purificação (Jo 3, 25). Jesus também assumiu essa posição e por isso há a cena conhecida como purificação do Templo (Mt 21, 12 ss, Mc 11, 15 ss, Lc 19, 45, Jo 2, 13 ss) que é a primeira coisa que Jesus faz ao chegar em Jerusalém.
Ao aceitar o batismo de João, Jesus assume os mesmos compromissos de João, de recuperar as esperanças do passado e ler a promessa do Deus de Javé a Moisés como “a ser realizada”, pois a realidade presente não significa a terra prometida por Deus, ou, em suas palavras, o Reino de Deus. Existe compromisso com as promessas do passado, mas não com as estruturas pecaminosas do presente (cf. 1ª leitura, sobretudo vs. 3-4)
No entanto, existe também compromisso com o presente, pois é a partir do sofrimento das pessoas que Jesus vai pregar o Reino de Deus. (cf 1ª leitura, vs. 7, 2ª leitura vs. 38 e também Lc 4, 16-21). Com o compromisso de anunciar a boa nova aos pobres, Jesus assume a missão iniciada por João e a leva a pleno cumprimento. A realidade do Reino de Deus chega quando as pessoas querem mudar de vida e pautam essa mudança nas esperanças de justiça que sempre acompanharam as profecias sobre o Messias. O compromisso com o presente é com as pessoas necessitadas e não as que querem manter as estruturas.
Existe também o compromisso com o presente e com a universalidade. Esse compromisso leva à missão de anunciar o Reino de Deus a todas as pessoas, em todos os tempos e em todos os lugares (cf. 2ª leitura vs.34-35). O batismo é o sinal desse Reino de Deus que se torna uma realidade com a conversão a Cristo (cf. a cena do batismo de um pagão em At 8, 27-39).
Refletindo sobre o nosso batismo. Ele deve ser compromisso com o passado, com as tradições, com os sentimentos dos cristãos, com os ensinamentos sobre o Evangelho que recebemos da tradição. Devemos saber que quando nos batizamos (ou aceitamos o nosso batismo) estamos “atravessando o Jordão” e chegando a uma terra de liberdade longe da escravidão do pecado, assim como todos os que nos antecederam. Claro que nosso compromisso é com o anúncio do Reino de Deus e não com a perenidade das estruturas, que podem se tornar obsoletas e não mais ajudar a promover o Reino de Deus.
Temos compromisso com o presente, quando nosso batismo nos compromete com a salvação dos pobres e dos pecadores, quando assumimos como tarefa nossa a construção de um mundo que se pareça ao Reino de Deus.
Temos compromisso com o futuro, pois é um futuro melhor que queremos. Nossa preocupação é também com a evangelização das crianças, para que conheçam a mensagem de Jesus e pautem sua formação para a construção do Reino que Jesus pregou.
Pois que os compromissos que Cristo assumiu no batismo, também nos comprometam com Ele.

Pe. Élcio José de Toledo, Sj

Cursou Filosofia e Teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte (MG). Trabalhou com a formação dos jesuítas, na etapa da Filosofia. Atualmente é pároco na Paróquia São Luis Gonzaga, na Avenida Paulista, em São Paulo.
Imagem: Batismo de Jesus por João Batista, Cláudio Pastro (Santuário de Aparecida)

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