Paroquia

Advento e natal: na noite do mundo o Messias veio nos visitar

O ciclo do Natal que abre o ano litúrgico é um tempo forte na vida da Igreja. Só não é mais importante que a Páscoa, por ser esta a festa central da fé cristã. Embora estejamos imersos numa cultura materialista que faz deste tempo uma oportunidade de vendas prósperas, a Igreja continua anunciando que o verdadeiro sentido deste tempo é a encarnação do Verbo de Deus, o Cristo que veio nos visitar! O anúncio do Natal está na contramão de nossa cultura hodierna: é tempo de penitência, como um caminho de conversão, e tempo de alegria pela vinda de Jesus. As trevas do consumismo jamais poderão apagar este anúncio que emerge como feixes de luz no coração dos fiéis.

No período do advento preparamo-nos para o Natal do Senhor, rememoramos as profecias sobre o Messias e o tempo messiânico, e a Igreja nos comunica a feliz esperança da segunda vinda gloriosa de Cristo no final dos tempos. Esse triplo mistério dá a total completude deste tempo, e por isso é marcado pela penitência expressa na sobriedade da liturgia, nos paramentos roxos e no convite à conversão, presente tanto na liturgia da palavra, como nos textos eucológicos (orações).  Com a tendência atual de, inclusive, materializar a fé, dificilmente os pastores ressaltam o importante mistério da segunda vinda de Cristo.  Como a tendência atual é focar no aqui e agora, o medo do fim dos tempos impede o aprofundamento do plano salvífico de Deus em sua totalidade. Anunciar o advento apenas como preparação do Natal é reduzir este tempo tão rico a uma mera comemoração natalícia. O anúncio da segunda vinda de Cristo, expressa na liturgia do advento, devolve a completude deste grande mistério de amor. Prosper Gueranger, um autor clássico, dá a seguinte explicação do triplo mistério deste tempo do advento: “Cristo veio na carne e na fraqueza, ou seja, sua vinda temporal; no espírito e poder, ou seja, a vida da graça no interior do homem; na glória e majestade, a vinda do último dia, como recorda aos fiéis a antiga sequência Dies Irae.”

Quadro O Juízo Final, de Jean Cousin.

A liturgia da palavra expressa o espírito deste tempo. Nos quatro domingos do advento, personagens como João Batista, Maria e José, o anjo Gabriel e o profeta Isaías, marcam o cenário da confecção do presépio. No evangelho dos domingos há uma referência à segunda vinda do Senhor no fim dos tempos (primeiro domingo – “Ficai atentos! Porque não sabeis em que dia virá o Senhor.” Mt 24, 42); uma referência ao anúncio de João Batista e seu convite à conversão como caminho de acolhida da vinda do Senhor (segundo e terceiro domingo); e, por fim, os acontecimentos que antecedem o nascimento de Jesus (quarto domingo). Na primeira leitura dos domingos, escutamos o profeta Isaías anunciando a vinda do Messias e dos tempos messiânicos, tempo novo de paz, saúde, unidade e amor. Na segunda leitura, o apóstolo Paulo e São Tiago apresentam as diversas características da conversão para acolhermos a salvação: “Procedamos honestamente, como em pleno dia” Rm 13, 13; “Pelo conforto espiritual das escrituras, tenhamos firme esperança.” Rm 15, 4; “Ficai firmes até à vinda do Senhor.” Tg 5,7; “Jesus Cristo, descende de Davi, Filho de Deus.” Rm 1,3. Durante os dias de semana, lemos o profeta Isaías e o evangelho que se relaciona com esse texto. A partir da segunda semana, o Evangelho é sobre João Batista; já na última semana, lemos os acontecimentos que preparam imediatamente o nascimento do Senhor, tirados do evangelho de Lucas e Mateus.

São João Batista pregando no deserto”, Michelangelo Cerquozzi

A eucologia do tempo do advento faz brotar, no coração dos fiéis, o desejo ardente da conversão para acolhermos ao Senhor que vem nos visitar. Imagens, como a de acorrer às boas obras, hão de facilitar nossa proximidade com o Cristo que vem (primeiro e segundo domingo); chegar com alegria diante da salvação (terceiro domingo, gaudete “domingo da alegria”); conhecer, pela mensagem do Anjo, a encarnação do verbo, marcam este tempo. Os prefácios da oração eucarística nos fazem mergulhar no mistério das duas vindas de Cristo, em Cristo Senhor e Juiz da História, em Maria Nova Eva. Circunda na eucologia uma via de esperança própria deste tempo: esperança dos profetas, esperança do amor de Mãe de Maria, esperança e realidade mostrada por São João Batista. Essa esperança que outrora era deles, deve ser a nossa esperança, capaz de nos encher de alegria pela vinda do Salvador feito homem, uma primeira vez no natal, e de uma atitude de vigilância, para que o Senhor, vindo uma segunda vez, “nos encontre vigilantes na oração e celebrando seus louvores.”

O natal é a coroa deste ciclo litúrgico; é o tempo onde recebemos com alegria o Redentor, que veio na noite escura do mundo nos trazer a luz da salvação e virá, uma segunda vez, como juiz e Senhor da história. A liturgia bizantina canta nas vésperas de 24 de dezembro: “Cada Criatura saída de Ti, Te dirige, Senhor, o seu testemunho de gratidão: os anjos, o seu canto; os céus, a estrela; os Magos, os seus dons; os pastores, a sua admiração; a terra, a gruta; o deserto, a manjedoura; e nós, uma Mãe virgem.” O advento abre nossos olhos para contemplarmos a beleza e a grandeza de termos Deus conosco! Deus que habita no meio de nós! Como não se maravilhar diante de tão grande luz? Como não acolher com amor tamanho mistério de amor? Deus se faz um de nós para nos salvar e nos arrancar da noite escura do materialismo!

Pe. Geovani Antonio Dias, mi

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